A poucos dias da eleição, ouvimos candidatos a presidente, governador, senador e deputado fazer promessas sobre segurança, saúde, emprego e custo de vida. Há, porém, uma pergunta que deveria tocar todas essas propostas: o que pretendem fazer diante da mudança do clima? Reuni cinco questões que vão orientar minhas escolhas nas urnas em 4 de outubro.Como meus candidatos vão proteger as pessoas do calor, das enchentes e das secas?Depois de um desastre, não faltam visitas, discursos e promessas de reconstrução. A pergunta difícil é o que será feito antes. Onde estão as áreas de maior risco? Quem receber um alerta terá para onde ir? Como escolas, hospitais, moradias e transportes funcionarão durante uma onda de calor ou uma inundação?O Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades estima que cerca de 4,7 milhões de pessoas viviam em áreas de alto ou muito alto risco geológico no Brasil em 2026, aproximadamente 7% mais que no ano anterior. O dado não inclui todos os brasileiros expostos ao calor ou à seca, mas dá a dimensão da urgência de proteger quem mora em áreas sujeitas a deslizamentos e outros desastres.Um candidato que fala em proteção precisa explicar como apoiará a prevenção, a defesa civil, a arborização, a drenagem e as famílias mais expostas. De deputados e senadores, cabe cobrar leis e prioridades orçamentárias. De quem disputa o Executivo, metas, prazos e responsáveis.Como meus candidatos enfrentarão o desmatamento?O Brasil desmatou cerca de 985 mil hectares em 2025. Houve redução em relação aos anos anteriores, mas ainda se perdeu uma área enorme de vegetação nativa. A melhora não é motivo para baixar a guarda: entre 2019 e 2025, a perda acumulada foi de aproximadamente 10,9 milhões de hectares.É fácil dizer que o país deve preservar suas florestas. Mais difícil é explicar como combater atividades ilegais, apoiar quem produz sem destruir e proteger os povos e comunidades que cuidam desses territórios. Nossos candidatos defendem fiscalização efetiva e instituições com recursos para fazê-la? O que propõem para que a floresta em pé não perca espaço para os ganhos imediatos de poucos?Produzir alimentos, gerar renda e preservar a natureza podem caminhar juntos. Precisamos saber como cada candidatura pretende fazer isso acontecer.De onde virá a energia que vamos usar e quanto ela vai custar?A transição energética costuma aparecer nas campanhas como uma fotografia bonita de painéis solares e turbinas eólicas. Mas envolve decisões menos fotogênicas: transporte público, combustíveis, indústria, eletricidade, infraestrutura e contas a pagar.O candidato precisa explicar qual lugar reserva ao petróleo e ao gás nos próximos anos, como pretende acelerar a transição e o que fará para que essa mudança não pese mais sobre quem já gasta boa parte da renda para se deslocar ou manter a casa funcionando. Prometer energia limpa sem discutir acesso e preço é contar apenas metade da história.Quem vai pagar pela prevenção e pela reconstrução?Todo mundo promete agir. Poucos dizem de onde virá o dinheiro. Prevenir enchentes, adaptar escolas ao calor e reforçar sistemas de alerta exige investimento contínuo, não apenas uma verba emergencial quando a tragédia já abriu o telejornal.Por isso, vale perguntar a qualquer candidatura: que recursos serão destinados a essas ações? Como chegarão a estados e municípios? E como a população poderá acompanhar os resultados? Um plano climático sem financiamento é um discurso à espera da próxima chuva.O que seus candidatos farão para proteger nossa comida e nossa água?Quando falta chuva, a produção de alimentos sofre. Quando a chuva vem com força demais, pode destruir plantações, estradas e sistemas de abastecimento. O resultado pode chegar à feira, ao supermercado e à torneira de casa.Quero saber o que os candidatos propõem para proteger nascentes, reduzir o desperdício de água, apoiar produtores diante de eventos extremos e garantir o abastecimento das cidades. Também vale perguntar como pretendem fortalecer a agricultura familiar, que precisa de condições para continuar produzindo mesmo com um clima menos previsível. Falar de clima sem falar do que colocamos no prato e da água que bebemos é deixar a discussão longe da vida das pessoas.Nenhum candidato resolverá sozinho esses cinco desafios. Mas quem pede nosso voto precisa mostrar que os compreende. Podemos discordar sobre prioridades e soluções; o que não deveríamos aceitar são promessas vagas, sem prazo, sem recursos e sem alguém responsável por cumpri-las.Para todos nós: antes de compartilhar o próximo vídeo de campanha, vale fazer um pequeno teste: depois de assisti-lo, você sabe o que aquela pessoa fará quando vier a próxima enchente, a próxima seca ou a próxima onda de calor? Se a resposta for não, ainda falta cobrir uma parte importante da conversa. Boa eleição a todos!











